Futebol em Pernambuco, mais razão do que emoção
Meu amigo Marco Bahé, do blog Acerto de Contas, postou em seus Twitter e Facebook, que, segundo uma pesquisa do Instituto Maurício de Nassau, apenas 4,7% dos pernambucanos torcem para times de outros estados. A isso acrescentou a harshtag #orgulho. Em resposta, uma pessoa que conheço respondeu que a torcer por Sport e Santa Cruz preferiria os times de outros estados. Já discordei, mas ainda em tom meio de chacota, mesmo que para mim esse assunto seja sério, muito sério. Meu primo, João Paulo, resolveu entrar na discussão com o seguinte comentário:
“Joao Paulo Pereira Nacle: É isso o que acontece quando a emoção sobrepõe a razão. Dois time na segunda e um na quarta divisão. Realmente é para se ficar orgulhoso.
about an hour ago · “
João, paulista e corintiano, quis ser irônico, claro. Não percebeu que, para nós pernambucanos, o fato que mencionou: Náutico e Sport na segunda divisão do campeonato brasileiro e o Santinha na quarta são consequência de uma deliberada política esportiva e torna ainda mais motivo de orgulho o fato da enorme maioria dos pernambucanos apenas torcerem pelos times do estado.
As organizações que dirigem o futebol brasileiro, CBF, clube dos treze e, indireta mais poderosamente, a Rede Globo de Televisão têm como objetivo aberto, declarado, concentrá-lo entre 10, 15 clubes do Rio, São Paulo, com sobras para Minas e Rio Grande do Sul. Acham que esse é o único caminho financeiramente possível para o esporte. Tem seus argumentos e montaram toda a estrutura de financiamento dos campeonatos brasileiros para isso. Qualquer movimento que vá em outra direção é implacavelmente combatido. O esforço deles para o desmonte da Copa do Nordeste há alguns anos e o pay-per-view que exclui os campeonatos estaduais senão os daqueles 4 estados são exemplos desse combate férreo.
Acompanhei o esforço da Liga do Nordeste e a ameaça de exclusão pela CBF dos demais campeonatos dos times que ousassem participar da edição de 2004. De nada adiantou as falações de Luciano Bivar e outros dirigentes para levar o campeonato adiante. Sem a televisão para transmiti-lo, ele foi cancelado, a despeito do enorme sucesso das edições anteriores. O jogo foi pesado e as ameaças nada veladas.
No pay-per-view a forma de atuação é mais sutil mas não menos efetiva. Eu mesmo ajudo a concretização dessa política e não há maneira de me livrar disso sem prejudicar ainda mais o Náutico, meu time. Pago R$ 60,00 por mês para ver o Timbú jogar por oito meses na segundona, nos demais 4 meses sou obrigado a escolher entre os campeonatos paulista, carioca, mineiro ou gaúcho. Além disso, não posso optar por excluir a primeira divisão do pacote. Assim, tenho em minha TV dois campeonatos, o da primeira divisão e o Paulista, que não faço questão de assistir. Para quem quer ver apenas esses outros, são necessários somente R$ 40,00. Ou seja, pelo esquema da Globo-CBF-clube dos 13, financio campeonatos de que não tenho interesse. Se os meus R$ 60,00, ou R$ 40,00 que sejam, fossem apenas para a Segunda Divisão do brasileiro e para o Pernambucano no meu caso ou para a Segundona e o Campeonato baiano ou paraense ou cearense, para o caso dos torcedores de Vitória, Remo e Fortaleza, posso assegurar que o Náutico e esses times estariam em situação bem melhor e em condições de ascender de “divisão”. Seria criado um círculo virtuoso de financiamento, bom futebol, público, títulos, renda. Era isso que estava acontecendo no Nordestão e acabou por pressão de fora.
A partir do momento que os torcedores de um estado passam a torcer por times “de fora”, acabou o futebol ali, perde-se uma marca de identidade. Quando isso acontece, quem perde não é apenas o estado, mas todo o futebol brasileiro, ao concentrar ao invés de diversificar suas fontes de bons jogadores, para citar apenas uma, das inúmeras consequências. Por conta disso, jovens que poderiam fazer o clássico caminho que começa no time de várzea e acaba na seleção brasileira por jogar nos grandes times nacionais, vão, ainda das várzea, para times de fora do país, empobrecendo todo o nosso futebol. É a “africanização”, pois se trata da reprodução exata do fenômeno que ocorre naquele continente de bons jogadores e infames campeonatos. O nosso futebol merece coisa melhor do que isso.
Tente achar um basco que não torça para o Atlético de Bilbao, ou um catalão que não seja Barcelona, um milanês que não seja Inter ou Milan. Tenho amigos ingleses que não estão nem aí para o fato de seus times jogarem na Second League, continuam a ir aos jogos e não “escolhem” outras equipes para torcer por conta do mal desempenho dos seus clubes. Daí vem parte da força do futebol destes países, com populações e consequentemente capacidade de recrutar talentos bem menores que a nossa. Seríamos imbatíveis, de fato e não apenas de lorota, se voltássemos a fazer o mesmo.
O campeonato italiano ou o espanhol ou o português não são maiores do que os nossos estaduais em número de jogos e clubes. Em recursos, no entanto, não há termo de comparação.Estes países optam por fortalecer de todas as formas seus próprios campeonatos e clubes, vão a África buscar jovens talentos para suas divisões de base e ao Brasil recrutar jogadores um pouco mais velhos e já prontos. As vezes, fazem grandes negócios as nossas expensas. Sobretudo quando um dos times que vendem são como o Náutico, o Sport ou o Santa. Ontem mesmo, o Diário de Notícias, de Portugal, cogitava chamar Ciro do Sport para o Sporting. E, pelo texto, o leitor sabia exatamente tanto quem era Ciro quanto que time era o Sport Club do Recife.
Campeonatos de 100 clubes, como eram o antigo e delicioso Brasileirão dos anos 1970 e 1980, talvez não seja a saída, mas as explicações que deram para a sua extinção também não eram causa da situação econômica dos clubes naquela época. Outras idéias, como era a da Copa do Nordeste, estaduais fortes devem ser tentadas em minha opinião.
O fato dos torcedores de Pernambuco não caírem na falsa premissa de que para termos bom futebol ele tem que ser concentrado em poucos times e continuarem a torcer para as equipes do estado apesar da falta de recursos, dos parcos títulos e da perda constante de talentos é sim motivo de orgulho. Pois ajudamos a deixar o futebol do Brasil um pouco mais vivo. Por tudo isso, João, além do orgulho que Bahé menciona, há muito mais razão do que emoção em, a despeito de toda a estrutura ser voltada para times que se querem “nacionais”, torcemos para os de nosso estado apenas.
GOOOOLLLLL do Timbú! Vamô Náutico. Bahia, não faz merda aqui no DF
Como futebol é simples. Basta pagar os salários que os times mudam da água pro vinho, basta não pagar que os times quase caem para a terceira divisão. Esse é o meu Náutico. Na primeira metade do campeonato, com os salários em dia, o time liderava com folga a Segundona. Em uma rodada chegou a estar quatro pontos a frente do segundo colocado.
Triste sina. Como soi acontecer com times mal administrados, dinheiro faltou, os salários não foram pagos, o bom técnico não conseguiu manter o time e foi o bode expiatório de toda a fúria da torcida e, como consequência, o time afundou no campeonato. Graças a folga de pontos conseguida no início, ainda não caiu para a zona de rebaixamento, falta pouco, entretanto.
Pagou os salários. O time melhorou. Não voltará a jogar como no início do campeonato. Os meses sem dinheiro, fez o time perder os principais jogadores. O que ficou é um grupo com mais vontade do que qualidade. Mas é essa vontade com que teremos que contar pelas próximas três rodadas para nos mantermos na segunda divisão. Tudo isso poderia ter sido evitado. Gallo, o técnico; César Prates, o lateral; Geilson, um dos atacante e até Carlinhos Bala, o outro, poderiam ter sido poupados se o clube fosse bem administrado e, eu, poderia ser também poupado de ser obrigado a torcer pelo Bahia em jogo contra o Brasiliense, contra quem?!
N-A-U-T-I-C-O, Náutico, Náutico, Náutico!
Líder isolado da segundona!
football brasileiro
Eu tencionava publicar esse texto no dia seguinte a derrota do Brasil na Copa. Esqueci-me dele. Mas gostei tanto do argumento e do brincar com o texto, que eu pensava ter esquecido, que resolvi ajustá-lo e publicá-lo ainda que a Copa já tenha acabado.
O jornalista Ricardo Noblat, em seu blog, logo após a derrota do Brasil para a Holanda, duas semanas atrás, deu a entender que iniciaria uma campanha pela recuperação da autenticidade do futebol jogado no Brasil. Para isso, publicou dois excelentes e antigos textos. Um de Pier Paolo Pasolini após a conquista do tricampeonato e outro, bem mais antigo, de Gilberto Freyre.
Éramos poetas nas palavras de Pasolini. Éramos mulatos nas de Freyre. Ambas as crônicas, apesar da distância de 7 Copas - o primeiro é da década de 1970, o do segundo, do ano da Graça de 1938 - em nada contradizem-se, mais do que isso, complementam-se.
Esperei para ver se a série continuaria. Não continuou. Ainda que existissem inúmeros artigos, crônicas, reportagens que expressaram, ao longo de muito mais do que essas copas e esses anos, traço de cultura tão definidor do ser brasileiro, a ponto de inspirar comentários como este do jornalista Leandro Fortes:
Ao lado de seu caráter lúdico, caminha uma identidade cultural que, no nosso caso, confunde-se com a própria identidade nacional, a ponto de somente ele, o futebol, em tempos de copa, conseguir agregar à sociedade brasileira um genuíno caráter patriótico. Basta ver os carros cobertos de bandeiras no capô e de bandeirolas nas janelas. É o momento em que mesmos os ricos, sempre tão envergonhados dos maus modos da brasilidade, passam a ostentar em seus carrões importados e caminhonetes motor 10.0 esse orgulho verde-e-amarelo de ocasião. Não é pouca coisa, portanto.
Houvesse Noblat continuado a campanha, eu a apoiaria entusiasticamente.
E o faria porque o time derrotado na Copa representa a quase negação das constatações quase epifanias de Pasolini e Freyre. A poesia – o “laboratório da língua” segundo João Cabral de Melo Neto – que o primeiro percebeu, deu lugar a uma prosa quase jornalística, com seus chavões e fórmulas simples que se tentam passar por sinônimos de eficiência. O mulatismo que Freyre viu, obscureceu-se num grupo que se tentava fingir de arianos, e, salvo Robinho, esqueceu-se da manha, da ligeireza e da espontaneidade individual.
Sem poesia e sem querer parecer mulata, a seleção brasileira não passou de um time como outro qualquer, trocassem as camisas amarelas por brancos ou vermelhos e ele poderia ser um Real Madri, um Milan, um Arsenal. Algo sem marca alguma daqueles traços de cultura que constituem parte da identidade nacional do Brasil.
Identidade que precisa ser cultivada, ainda que me obrigue, como a CBF o fez nesta semana, a esperar até a meia-noite de uma terça-feira pelo gol, aos 45 do segundo tempo, que colocou meu, nem tão habilidoso assim, time - mas que tenta jogar como se aprende neste país - na liderança da segunda divisão do Campeonato Brasileiro.
Depois de assistir a uma Espanha campeã que ganhou todos os seus jogos por 1 x 0, calho de assistir ao filme oficial da Copa de 1994. Nem de longe foi a que melhor jogamos, mas foi a que melhor ganhamos. O pênalti perdido por Baggio é simplesmente esplêndido.